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18.2.18

Lisboa - 70 mesas que perdi


Nos dias de hoje, há ótimos restaurantes em Lisboa. Melhor: nunca Lisboa esteve servida por tanta oferta, tão diversa e de qualidade, em matéria restaurativa. Sinto mesmo a tentação de dizer que não “alimento” a mais leve dúvida sobre isso...

Todas as nostalgias valem apenas o que valem, até porque, no passado, muito provavelmente, o nosso grau de exigência era menor e o paladar menos apurado. Isso não evita que tenha saudades de alguns restaurantes lisboetas que já desapareceram, onde passei muito boas horas - a comer, a conversar, a beber, enfim, a viver. 

Aproveitando uma nota deixada, há dias, no Facebook, por Luís Pinheiro de Almeida, alguém que se dedica a esse impecável serviço público que é descobrir sítios de “bem comer” a preços razoáveis, vou fazer aqui um bosquejo rápido por mais de meia centena dessas boas mesas perdidas (deixo as más ou “esquecíveis” para outros voluntários), de muito diferente natureza, de uma Lisboa que se foi. Deixarei de lado, em princípio, restaurantes que ainda mantêm o mesmo nome, mudando embora o registo da oferta.

Comecemos, geograficamente, pelo Parque Mayer, onde, mais do que o tipicismo do “Chico Carreira”, ficou a boa memória do “Manel”.

Desçamos à Baixa, recordando o bem antigo e excelente “Oriental”, na rua da Conceição, onde os quadros médios-altos dos ministérios e dos escritórios desaguavam à hora do almoço. Depois, o “Paris”, com os criados de branco, onde as famílias amesendavam nos fins-de-semana. E, para terminar no magnífico “Muni”, nos Correeiros, onde o meu amigo Vidal e senhora nos davam uma comida com memória galega, com umas sardinhas de escabeche históricas. 

Numa saltada ao Cais do Sodré, nos Remolares, fica para sempre a memória do “Porto de Abrigo”, onde pontificavam, entre outras especialidades, as vieiras gratinadas e os vários patos. E não se comia nada mal na “Adega dos Macacos”, uns metros adiante, na praça dom Luis. 

Subamos o Alecrim, notemos por ali o fim da curiosíssima “Cervejaria Alemã” e da bela versão aumentada da “Charcuteria”, que o amigo Martins trouxe de Campo de Ourique. No Chiado, fiquemo-nos apenas pela solenidade dos dourados do “Aviz”, esse palco regular de jantaradas políticas.

Um pouco mais acima, nas escadinhas do Duque, que bem que se comia na “Casa Transmontana”! E atravessemos para o Bairro Alto, onde só sinto saudades do “Primavera do Jerónimo”, com os imperdíveis filetes de pescada e, claro, do eterno “Pap’Açorda”. Com tanta coisa boa e um ambiente inédito nessa Lisboa dos anos 80, o restaurante foi um belo “pontapé-no-charco” de um bairro que começava a sair da banalidade e entrar na moda. Agora, mudou-se para o mercado da Ribeira. Mas já não é a mesma coisa aquela “espera social” (e logo eu, que não sou nada de esperas!) no balcão, até que o Fernando ou o José Miranda nos arranjassem uma boa mesa. No Bairro Alto, alguns nomes de antigos restaurantes foram conservados, mas o “conteúdo” mudou bastante em alguns deles - em poucos casos para melhor.

O “Pedro Quinto” (que substituiu o “João Sebastião Bar”), do meu amigo Juvenal, fez as honras à artéria vizinha com o nome, com uma lista curta mas interessante. Nesse tempo, tinha já por ali desaparecido a “Charcuteria Francesa”, de muito boa memória, que depois deu a designação a uma outra casa simpática, junto à igreja de S. Mamede, que a voragem dos trespasses levou também. Um pouco mais abaixo, na esquina com o Salitre, deixou saudades moderadas o “Pedro e o Lobo

Umas centenas de metros adiante, no Príncipe Real, ficava, até à pouco, uma das glórias antigas da cidade, o simpático “Faz Frio”, agora entaipado à espera de um qualquer espaço da moda. E próximo, o “Quanto mais gente melhor”, onde cabia mais gente do que parecia. No mesmo quarteirão, há uma casa que vai mudando de nome, mas a que eu achava graça quando se chamou “Romanov”, designação que honrava a memória dos czares, o que uma noite estimulou a visita ruidosa dos nostálgicos da Revolução de Outubro. Mesmo em frente, junto ao chafariz, do lado do “Snob” havia uma minúscula mas bela tasca nos anos 90, que também andou na moda, e cujo chefe vim depois encontrar em Alfama.

Continuando a caminho do Rato, a “Rota das Sedas”, que tinha dias, foi o meu pouso semanal numa tertúlia que agora mudou de ares. Por ali ficava a estimável “Esplanada do Rato”, onde se comia “tant bien que mal”.

A geografia leva-nos agora abaixo, à praça das Flores, onde o “Conventual” fez época, com a sua notável mesa de doces. Muito e bem por lá comi! Ainda um pouco mais abaixo, por São Bento e Madragoa, houve algumas casas que mudaram de nome. O “Constituinte” e o “Bolixa” foram poisos que me ficaram na memória, mas nenhuma saudade imensa me deixaram. Ou melhor, talvez apenas a antiga “Travessa”, “as belgas”, com um ambiente excelente, que depois se subdividiu na nova “Travessa do Convento das Bernardas”, onde ainda está a Vivianne, e no “Guarda-Mor”, onde já não está a Sofia.

Duas notas para casas desaparecidas, ali perto. Um pequeno restaurante de duas irmãs nos Poiais de São Bento, os “Bichos”, onde ia com um amigo deputado. Perto, no fundo do Poço dos Negros, houve um simpático restaurante com comida marroquina, chamado “Mercatudo”.

Bem mais adiante, em Alcântara, isso sim!, uma grande nostalgia: o “Painel de Alcântara”, do magnífico Cardoso, um amigo que mudou de mundos. E também havia ali o “Cuidado com o Degrau” (que tinha um perigoso degrau à entrada!), onde se chegou a comer bem, num espaço com alguma graça. E, ali bem perto, fechou há semanas o memorável “Retiro do Chefe Costa”, uma casa de que eu gostava bastante.

Três notas de proximidade. Na Gare Marítima de Alcântara houve um belo restaurante, cujo nome me escapa, com influência indiana: tinha uma bebinca como poucas que comi. Em Belém, faz falta o belo “São Jerónimo”, onde se comia muito bem, num ambiente elegante. E, passando “por cima” da linha férrea, uma nota de nostalgia para o fim do “Espelho de Água”, na sua mais clássica forma. Um quilómetro adiante, em Algés, foi pena ter desaparecido o velho “Petit Restaurant”.

Regressando a Leste, e subindo a Campo de Ourique, faz-me bastante falta a “Tasquinha da Adelaide”, com a saudável alegria da dona. Eram 29 lugares sentados que várias vezes “fechei” para amigos, com uma cozinha onde a simplicidade era o segredo. Há restaurantes que não entendo por que fecham, e a “Tasquinha” é um deles! (Há outros que não entendo por que abrem e ainda outros que não sei por que diabo se mantêm). Uma nota também, ali perto, para o “Caldeiro”, na Silva Carvalho, também um pequeno espaço de comida séria e lugar de bela conversa. Até o “Bem disposto” se foi e, com ele, dos melhores pasteis de massa tenra da capital. Mas, tirando dois indianos que dali desapareceram (mas ainda existe um, junto ao mercado, que pouca gente conhece), Campo de Ourique continua hoje muito bem e recomenda-se francamente à mesa.

Nas Amoreiras, ao lado do Procópio, deixou boa memória o “Mãe d’Água”, onde Angel Candeira, depois do “Angelus” do fondue a caminho de Sesimbra e do excelente “Porta Branca”, encerrou a sua carreira. A dois passos, foi uma grande pena ter desaparecido, na Artilharia Um, o excelente “Mezzaluna“. Menos memória deixaram os grelhados do "Chester”, a dois passos.

Um pouco mais acima, na Padre António Vieira, tenho boa recordação do “Ivo’s”, a primeira hamburgueria de Lisboa. Na mesma rua, ao que me recordo, houve a primeira pizzaria da capital, mas não me deixou nenhuma memória afetiva, pelo que não deve ter sido coisa notável. 

Passando ao vizinho Campolide, nunca tendo sido um marco gastronómico, o “Olho do Cuco” era um paraíso para os tête-à-tête, que só se mantinham discretos porque se empatavam no embaraço...

Na praça de Espanha, claro que se sente a falta da “Gôndola”, com as empregadas de avental, a lembrar a “Quinta”, no alto do elevador de Santa Justa, que também se foi. E, no que me toca, ali perto, o fecho recente do “Castro Elias” deixa-me alguma mágoa. 

Seguindo pelas Avenidas Novas, além das sardinhas da Feira Popular, tenho pena de se ter perdido o “Toni dos Bifes” e, não muito longe, o excelente “Telheiro”. Mas a mágoa do fim do restaurante do “Montecarlo”, essa sim! é inapagável. Aqueles bifes, as notas indianas e aquele inigualável pão pequeno ficaram-me na memória gustativa. Para o fim da noite, o “Monumental” também dava muito jeito. Boas recordações, mais recentes, deixou também o “Cinco do Dez”, na 5 de outubro, tal como o “Funil” de outros tempos, uma casa onde as famílias assentavam nos fins-de-semana.

Passando para outras Avenidas então novas, outra nota para a “Isaura”, uma cave na Avenida de Paris, onde se comia bem e se bebia melhor, com a garrafeira à nossa volta. Perto, havia também o “Cunha” e o “Paris”, onde, ao contrário da “Isaura”, se subia para a sala. 

No Campo Grande, quem se lembra do “Antigo Retiro do Quebra Bilhas”, com o seu belo espaço exterior? Nunca se comeu excecionalmente, mas o ambiente de tasca “fora de portas” era magnífico.

Muito perto, no Areeiro, houve uma bela cervejaria, a “Munique”. Uma nota, muito sentida, para a minha “cantina”, por anos, a “Imperial do Campo Pequeno”, na Sacadura Cabral, avenida ao fundo da qual havia também uma bela tasca, desaparecida ainda nos anos 70, o “Chico”, com bom peixe e os tradicionais tabiques de madeira. 

Notas finais. 

Nos restaurantes “topo de gama” que fazem falta noto o “Nobre” da Ajuda (hoje há outro por lá, muito diferente e noutro lugar), o “Clara” no Campo de Santana, o “Clube dos Empresários”, numa bela casa hoje em ruínas na avenida da República, o velho “Coelho da Rocha” (da escola do “Gambrinus”) e, um “degrau” abaixo na escala, o “Saddle Room”, em frente ao liceu Camões. Não longe deste, do outro lado da Fontes Pereira de Melo, comia-se muito bem no “António”. Não ficava muito perto, mas, na Antonio Augusto António de Aguiar, era muito simpático o “Petite Folie”.

E alguns outros restaurantes agradáveis, mas cujos nomes já se me varreram? Um belga, numa transversal à Alameda Afonso Henriques. Um açoreano nas traseiras do CDS, ao Caldas. Um pequeno à esquerda de quem subia a Cecílio de Sousa. Um minhoto do lado esquerdo de quem subia a Calçada de Carriche. Uma bela casa, creio que num páteo, em Sete Rios.

Finalmente, um local onde acabei muitas noites e vi começar alguns dias, o restaurante da Rotunda da Encarnação, nas bombas de gasolina, entre o Aeroporto e os Olivais, onde vivi por alguns anos.

Acabo como comecei: nos dias de hoje, Lisboa tem uma oferta gastronómica de muito maior qualidade e variedade. Mas deixar algumas notas sobre aquilo que nos sustentou, com gosto, a vida passada é um ato de justificada gratidão.

4.2.18

Alta “gastronomia”


Redescobri a delícia do pão com manteiga! Desde há anos que tinha passado a olhar com uma sobranceria crítica quem esparramava, com uma faca, aquela coisa amarela no pão, quando havia tantas outras coisas, das compotas a pastas, para lhe dar um sabor forte. Achava o pão-com-manteiga um primarismo, uma coisa de infância tardia, uma falta de imaginação.

Ainda por cima agora, quando os pães de qualidade começam a renascer por Lisboa (não, não é a “Padaria Portuguesa”, que é banal), desde Alcântara (na Prior do Crato) a S. Bento (na rua Nova da Piedade), passando pelas Avenidas Novas (esquina da Defensores de Chaves com a Miguel Bombarda). 

Mas. um dia, fui levado a provar uma manteiga açoreana (com sal, claro!), de seu nome Milhafre. Que maravilha! Não quero outra coisa! Grandes pãozadas, barradas generosamente, me têm servido de regalo, com os últimos pacotes dos “blend” de chá que trouxe do “Fortnum & Mason” (tenho de ir a Londres buscar mais).

Viva o pão-com-manteiga! 

3.2.18

Três (ou bastantes mais!) notas em Lisboa


Fui (finalmente) ao badalado JNcQUOI. Almocei no restaurante do piso nobre, naquele espaço ao lado do Teatro Tivoli, excelentemente decorado e com bom ambiente (muito turístico-abastado). Também visitei o belo balcão no andar inferior, com bons vinhos à venda. Mas voltemos ao andar de cima: a relação alimentação/serviço/preço esteve muito longe de me satisfazer. Pratos muito caros e um serviço “casual arrogant” (a nossa mesa foi brindada com um “hispano parlante” sem o mínimo de “métier” e com escassa cortesia). Mas, atenção, nada de negativo a dizer quanto à comida, antes pelo contrário. Também por aquele preço, era só o que faltava que não estivesse boa! Mas já há muito tempo que não esperava tanto tempo por um café no fim da refeição, coisa inadmissível num espaço daqueles. Pronto, ficou feito o “vezinho” e, como diz um amigo meu, fui lá três vezes: a primeira, a única e a última...


Já não ia ao Ibo, o moçambicano do Cais do Sodré há uns tempos. Sem ser deslumbrante, o espaço é simpático e, em especial, agradou-me sempre muito a esplanada exterior (agora impossível de usar à noite). O serviço é agradável e atento. O preço é um pouco desmesurado: sempre foi caro e está mais. A comida esteve assim-assim, confesso. Tinha uma ideia bem melhor da cozinha do Ibo. Embora com boa apresentação, a oferta pareceu-me um pouco “cansada”, talvez fruto de uma lista demasiado longa e do restaurante já não ter de lutar por clientela. A carta de vinhos está especulativa de mais. E, claro, não gostei que não houvesse precisamente o prato que eu queria e e o vinho que me apetecia. Não volto tão cedo.


Jantar no Gambrinus. Esta é uma Lisboa constante, cara (claro!), com um serviço impecável, rigoroso, profissional. O Gambrinus é o restaurante mais previsível que conheço. Não há surpresas, não há deceções, tudo está no ponto. É uma “senhora” por quem não passa o tempo. Perguntei por um vinho que estava na lista e que não conhecia: foi-me dada uma explicação que correspondeu, ponto por ponto, àquilo que viria a beber. E estava à temperatura certa, o que começa a ser raro por aí. E o Gambrinus tem “voiturier” ("manobrista" no Brasil), o que é comodíssimo. Ah! e café de balão, preparado ali à nossa frente, tal como são os crepes, com o fogo à vista. Grande Gambrinus! Se tivesse muito dinheiro, ia lá mais vezes.

Dos vinhos

”Cada vez se produzem mais vinhos interessantes em Portugal, embora também seja verdade dizer que nunca se produziram tantos vinhos desinteressantes: corretos e bem feitos, mas sensaborões, previsíveis, iguaizinhos e monótonos”.

Andava a pensar isto há muito tempo. Li agora, escrito por Miguel Esteves Cardoso. Aqui fica.

26.1.18

Quinta do Outeiro (Amarante)


Na terra de Amadeo e Pascoaes

Amarante é um dos segredos mais bem guardados do país. O Tâmega atravessa a cidade sob um panorama deslumbrante, através de um centro histórico belíssimo, onde o museu de Amadeo de Souza Cardoso e a adjacente igreja de São Gonçalo são marcos a não perder. Igualmente notória é a doçaria, onde imperam os ovos: as lérias, os papos d’anjo , os foguetes, os São Gonçalos e as brisas do Tâmega. 

Sempre se comeu bem em Amarante. Desde há uns anos que tenho vindo a acompanhar – e a confirmar – o esforço notável de melhoria, no serviço e na qualidade, que tem vindo a ser feito na Quinta do Outeiro, um restaurante numa moradia no lugar do mesmo nome, a que se acede, com grande facilidade, quando se circula pela A4, dela saindo, para quem vem do Porto, antes da grande ponte sobre o Tâmega.

A Quinta do Outeiro fica num alto, com vista sobre a cidade, com amplo espaço para estacionamento, o que, como é sabido, é uma preciosidade nos dias que correm. Por alguns anos, dispunha de uma única, embora ampla, sala. Agora, expandiu-se por um elegante espaço, amplamente envidraçado, sem, no entanto, ter visto a qualidade da oferta gastronómica minimamente afetada, como às vezes acontece. E também serviço teve um “upgrading”, sem, no entanto, perder o caráter genuíno e de simpatia. Como cliente habitual, desde os primeiros tempos, constato que nunca dali saí desiludido.

Passei por lá há dias, numa noite muito movimentada, próxima do Natal. E a refeição correu muito bem, sem uma falha nos pratos pedidos, com um atendimento rigoroso. 

Nas entradas propostas, fomos parcos: optámos por uma excelente alheira com grelos e um salpicão da Serra do Marão. Mas havia pataniscas, bolinhos ou salada de bacalhau, rojõezinhos, orelheira com molho verde e cogumelos salteados. Espargos ou melão com presunto também estavam disponíveis.

A casa opta, e bem, por uma lista curta nos pratos “de substância”, com meia dose ou dose completa para duas pessoas, a preço muito razoável, variando todos os dias. 

Nos peixes, além de salmão grelhado e pescada suada, havia um bacalhau com crosta de broa e batata a murro, com muito bom aspecto. Mas escolheu-se – e não ficámos arrependidos – um excelente bacalhau dourado, com demolho no ponto. 

Nas carnes, a casa excela. Há um javali estufado em verde tinto, um espeto de novilho com presunto, um medalhão de vitela com molho de mostarda, uns rojões com castanhas, um tornedó de vitela com queijo da serra e maçã assada. Mas decidiu-se fazer o teste supremo: pedir uma posta de vitela com batata a murro. E a Quinta do Outeiro passou amplamente, com a carne maronesa, muito bem temperada, como expectável menos suave que a barrosã, mas muito saborosa. Atenção! Recordo-me que, em certos dias, há por ali um excelente cabrito e, dizem-me, um cozido à portuguesa “de se lhe tirar o chapéu”.

Nas sobremesas, optou-se pelas sazonais rabanadas, mas destaco da lista os amarantinos, os pudins de ovos ou de ananás, os bolos de cenoura e nozes ou de bolacha, o quindim, etc.

A lista de vinhos é agradável, sem ser esplendorosa. Se pedir o vinho da casa, atenção!, ser-lhe-á servido verde, mas há vários maduros excelentes. 

A Quinta do Outeiro que, repito, tem vindo a melhorar, é hoje um valor seguro, a que sempre recorro com gosto, na bela terra de Amadeo e de Pascoaes.



Quinta do Outeiro
Rua do Outeiro de Baixo, 15
Tlf. 255 010 092
Amarante
Wifi
Estacionamento próprio
Preço médio: 25 euros
Não fecha

24.1.18

Trattoria (Lisboa)


Ontem à noite, ao entrar para jantar na Trattoria, o restaurante que fica quase na esquina da rua Artilharia 1 com a avenida Joaquim António de Aguiar, hesitei: estaria fechado? Mas eu tinha reservado! A porta estava escura, era difícil a um passante pensar que o restaurante estivesse aberto. Um casal brasileiro que nos acompanhava, frequentadores regulares de Lisboa e daquela zona, disse-me ter tido frequentemente a mesma sensação. A Trattoria não é, mas às vezes pode parecer, um restaurante “clandestino”. Porquê?

E, contudo, a Trattoria é um excelente lugar para se ter uma boa refeição, com pratos italianos (e não só) de muito boa qualidade e apresentação, a um preço agradável. O serviço é cuidado, o espaço é diversificado. À hora de almoço é um restaurante muito movimentado, mas é decididamente um lugar para “connoisseurs”, que não investe muito na hora de jantar. Dá ideia que a Trattoria tem mesmo a “snobeira” de querer passar despercebido! 

Visitem a Trattoria e verão que não se arrependem.

14.1.18

Quatro dias, cinco mesas


O Alentejo, em matéria de restaurantes, é uma “nação” (como se diz no Porto)! Não conheço zona do país (excetuando o Algarve, que é uma espécie de “offshore” em termos gastronómicos) onde haja uma concentração tão forte de boas mesas, onde a probabilidade de se não ter uma desilusão quando se entra numa casa desconhecida seja tão baixa. Confirmei isso agora, nuns dias que passei em Arraiolos.

Deixo cinco notas.

A primeira, e com destaque, gostei imenso da experiência do restaurante Gadanha (com a sua Mercearia), no centro de Estremoz. Uma lista criativa, bela apresentação, um serviço muito profissional, um local a revisitar com grande prazer. Preço a condizer.

Em Arraiolos, três notas. 

Na Pousada Convento de Arraiolos, num espaço hoteleiro hoje um pouco descuidado, tive, contudo, uma boa refeição, com um serviço atento e simpático. O preço foi o das pousadas, que não é baixo

No centro da vila, duas experiências. 

A primeira no restaurante Alpendre, um clássico, com decoração rústica bem alentejana, ficámos com “mixed feelings”. Tem uma carta ambiciosa que, no entanto, necessita de dar mais garantias na qualidade do que é servido. Serviço agradável. Preço razoável. Há que voltar.

A segunda foi na Moagem. Uma casa mais modesta, mas em que fomos bastante bem servidos, com o dono da casa a atender uma sala cheia. Preço bastante razoável.

Finalmente, já de saída, em Lavre, entre Montemor e Coruche, no Maçã, num almoço de domingo, com casa a abarrotar, tivémos um ótimo almoço. A sala é banal, as mesas um pouco encavalitadas, mas o serviço, apesar de lento, foi capaz e atento. O preço foi muito agradável.

10.1.18

O conceito


“Conhece o nosso conceito?” Foi já há alguns anos. Não percebi o que é que a jovem que me recebia no restaurante queria dizer com aquela pergunta. Devo ter feito uma cara de espanto, o que a levou, generosamente, a elucidar-me: “Gostava de lhe explicar o conceito do nosso restaurante”. 

O ”conceito”, na novilíngua restaurantista, é o modelo que marca a forma, necessariamente atípica, como se vai passar a refeição: ou há uma compra do vinho numa loja à parte, ou somos conduzidos através de espaços geográficos diferenciados da casa onde se passam “tempos” restaurativos ou beberricais diferentes, ou a ordem dos pratos segue um ”percurso” que o “chef” desenhou para diferenciar a sua “assinatura” na obra-de-arte que vamos ser convidados a “experienciar” (um vocábulo que abomino) - e a pagar com língua de palmo, claro.

O mundo dos restaurantes com “conceito” anda aí com força. Deve haver quem goste, imagino.

27.10.17

Restaurante Laranjeira (Viana do Castelo)



Uma Viana com tradição

A casa de que hoje vou falar é o exemplo acabado da evolução, que aconteceu em muitas vilas e cidades de província, daquilo que era a zona de refeições de uma antiga pensão para o que se tornou num cómodo e moderno restaurante. Num país em que, durante muito tempo, a rede hoteleira foi escassa e pouco acessível à bolsa da maioria dos viajantes, as pensões ofereciam alternativas de alojamento “mais em conta”. Eram sempre apoiadas numa sala de refeições, num registo quase familiar, que passou a abrir-se ao público exterior. Sem grandes pretensões ou arrebiques, nem falhas muito notórias - dependendo da qualidade dos produtos, do pundonor dos proprietários e da “mão” de quem os confecionava - a “comida de pensão” era, em geral, simples e escorreita, recorrendo à culinária portuguesa essencial. 

Nas memórias (algumas mais nostálgicas do que saudosas, confesso) que guardo desse país do passado, tenho registadas algumas pensões que criaram nome e firmaram justos créditos, muitas vezes ligados à arte de umas senhoras (nessa altura, a cozinha era reino exclusivo das mulheres) que ficaram conhecidas pelo seu nome próprio, a que algumas vezes ligávamos um determinado prato em que se distinguiam. Ia-se a “tal sítio” pelo bacalhau ou os pastéis de massa tenra ou o cabrito da Dona Adozinda, da Dona Felismina ou da Dona Gertrudes – para usar os nomes que o meu amigo Rui Vieira Nery lembrou, num texto saboroso, para designar as cozinheiras desses tempos.

O Laranjeira, bem no centro de Viana do Castelo, com os seus 75 anos de existência, é bem desse tempo. Era a Dona Maria, proprietária com o marido Francisco, quem oficiava na cozinha e que, ainda hoje, aos 95 anos, por ali é vista com gosto. Os aparadores escuros e o soalho que rangia, da minha memória muito antiga, foram substituídos por uma decoração funcional, que dá leveza ao espaço. Ao fundo, sem um cheiro a transbordar, fica a cozinha. Na sala, o proprietário, José Laranjeira, de sorriso aberto, e a Maria Eugénia, colaboradora que faz parte da mobília, desdobram-se numa atenção delicada aos clientes.

Passando à razão da visita. A lista, que é muito cuidada, apresenta, para além dois pratos de carne e dois de peixe do dia (não excedendo € 10 euros), uma lista razoável de entradas, encimada por uma degustação de sabores tradicionais, algumas saladas e gambas ou mexilhão salteados em azeite. Nas sopas, salienta-se, há muito, a de peixe. Nestes últimos, o bacalhau à Laranjeira tem justo nome, os filetes de pescada são um ex-libris, o peixe grelhado é o da lota, havendo um arroz caldoso de tamboril e um excelente (tenro, provei) polvo na caçarola. Nas carnes, o cabritinho no forno estava muito bom, tal como as costeletinhas de borrego. Havia ainda a vitelinha estufada (notem-se todos estes “inhos”, muito nortenhos) e o assado de porco com castanhas. As sobremesas vêm num carro, numa moda que eu gosto e me provoca recorrentes hesitações. Por lá estavam coisas como o pudim de ovos, o leite creme, coisas boas de chocolate e fruta para os que não queiram pecar. Ah! Um belo queijo da serra com marmelada caseira fechou a função. Boa variedade de tintos e, em especial, verdes brancos, a preços razoáveis, ajudam à função

Viana tem vindo a melhorar a sua oferta de restaurantes. Posso estar enganado, mas o Laranjeira é, seguramente, dos mais antigos e, com toda a certeza, aquele que, dentre estes, melhor evoluiu.

30.9.17

Marisqueira José João (Graciosa, Açores)



Uma Graciosa surpresa

Os Açores estão na moda. De há uns tempos para cá, o turismo que tem Portugal como destino, cansado do óbvio, do sol-e-praia e das igrejas que a História nos deixou, passou a olhar a nossa natureza com outros olhos. De início, eram uns britânicos e nórdicos deslumbrados com os caminhos montanhosos da Madeira e, por vezes, do Gerês. Depois, foi a descoberta do caminho fluvial para o Douro, com amenidades etílicas a ajudar à festa. Agora, com as "low-cost" a ajudar, os Açores emergiram no meio do Atlântico. O Portugal verde está cada vez mais recomendável.

Sou do tempo em que comer nos Açores - desculpem-me os açoreanos! - era uma aventura sem um fim muito gratificante à vista. Das diversas vezes que por lá andei nas últimas quatro décadas, recordo-me de escassas mesas decentes em Ponta Delgada e em Angra do Heroísmo, quase nada no Faial e alguns outros poucos locais a "armar ao típico", com a inevitável alcatra e um sofrível vinho do Pico. Valia-nos o queijo! Mas ninguém ia aos Açores para comer bem. Ponto.

Tudo mudou? Muita coisa mudou, para melhor. É claro que a oferta gastronómica ainda está a milhas de justificar uma deslocação ao arquipélago, mas começa a acompanhar o surto de turismo que, nos últimos anos, inundou as principais ilhas. Nem sempre isso sucede de uma forma qualitativamente acertada. Há alguma massificação a gerir melhor, parece haver um défice na qualidade média do serviço nos restaurantes a que há que estar atento. Mas as coisas vão no bom caminho.

Há semanas, fui à ilha da Graciosa. Apeteceu-me escapar ao hotel, pelo que perguntei onde se podia ter uma boa refeição por ali. As opções eram muito escassas, menos do que os dedos de uma mão. Somei as referências vindas de todas as fontes e todas coincidiram em que “no José João é que se come bem”. Nem sequer foi necessário seguir o método infalível que costumo usar numa terra onde nada conheço, e que deixo como segredo aos leitores: perguntar qual é o melhor restaurante da localidade a uma pessoa, simultaneamente, com ar abastado nas posses e bem anafado no corpo. Nunca falha! Ensinaram-me também, há tempos, um método cumulativo: inquirir qual é a mesa local preferida do presidente da Câmara. Se as duas referências coincidirem, melhor é, seguramente, impossível.

Com um conversador taxista a ajudar, lá fomos à Marisqueira José João. O rústico da casa não augurava nada de especial. A Débora, simpática e bonita filha do dono da casa, terapeuta de profissão a ajudar a família, em crise de mão-de-obra, guiou-nos por uma lista à partida pouco apelativa, um tanto “cansada” na apresentação, com alguma escassez na variedade dos vinhos. Mas a linguiça da Graciosa logo nos conquistou, com um excelente queijo temperado a ajudar. As opções de carne eram apreciáveis, dos diversos bifes à clássica posta. E por aí fomos, porque a carne açoreana é magnífica. Estávamos, contudo, numa marisqueira e o marisco disponível era escasso. Teria sido prudente ter encomendado cracas, cavaco e lapas. Que fazer? Voltar, claro! Assim fizemos no dia seguinte, para uma refeição soberba de marisco. Quem haveria de dizer que numa remota e pequena ilha atlântica iríamos comer de uma forma que nos ficará na mais positiva memória de uma visita aos Açores?

Marisqueira José João
Rua Fontes Pereira de Mello, 148
Santa Cruz da Graciosa
Tel. 295 732 855

30.6.17

Bodegão (Póvoa de Varzim)


Aquele casario baixinho, feito de casas de pescadores, foi mudando muito com os anos. A Póvoa de Varzim cresceu imenso, de A-Ver-o-Mar a Vila do Conde, mas não perdeu por completo a imagem de praia burguesa, onde, no passado, antes dos Algarves, algum Norte vinha passar os agostos, passeando na marginal da Avenida dos Banhos, com uma saltada ao Diana Bar (hoje biblioteca) e ao Casino.

Na Póvoa, pela minha memória, sempre houve locais onde se comeu bem. Daí a minha curiosidade em experimentar o Bodegão, restaurante e cervejaria, de que há muito me haviam falado, com nota positiva, num género descontraído.

Trata-se um espaço com dois níveis, com uma decoração de tralhas de velharias, com alguma graça, assegurando um ar acolhedor. Quase lembra o velho Café Chinês! Verdade seja que tudo é muito ajudado pela grande simpatia do pessoal, cujo profissionalismo e eficácia pude testar, num dia de grande movimento.

Gostei do pormenor, correto, de nos proporem entradas, sem no-las imporem. Coisas do mar (ameijoas, gambas, camarão, sapateira, polvo, mexilhão, atum, bacalhau) a preços razoáveis, com muito boa qualidade e confecção, naquilo que se provou. A lista era grande, tradicional, muito portuguesa.

Começámos com uma sopa de marisco, que demorou o tempo necessário a provar que tinha sido feita na hora, muito “rica” nos seus variados componentes. Nas propostas do dia havia coisas como um “arroz de robalo como o pescador poveiro faz”, um cabrito assado à padeiro (muito bom!), além dos clássicos bacalhau, arroz de pato e costeletão. A curiosidade levou a optar por uma “especialidade” da casa, a “posta à Bodegão com crosta de alheira”. Não me arrependi: carne era boa, saborosa, mas (desculpem lá!) não era posta. (A regra é “simples”: uma verdadeira posta deve ser passível de ser cortada com o outro lado da faca). Nos peixes, havia uma larga escolha “da canastra”, além de vários bacalhaus, fazendo honra à proximidade do mar. Várias outras carnes, com a vitela em destaque, em diversos tratamentos culinários, eram propostas. De novo, a posta dita “à Mirandela” (em Mirandela não há tradição de posta, a posta é “mirandesa”, de Miranda do Douro…). Permito-me também recomendar um maior atenção ao escrever al ajillo” e “champignons”, porque o rigor na apresentação de uma oferta gastronómica é o cartão de visita de uma cozinha. Depois, havia diversas propostas de marisco, risottos, pastas, saladas, alheiras e até francesinhas! A lista não era pequena!

Uma boa escolha de frutas e (muitos) doces clássicos compunham o menu das sobremesas, onde se optou simplesmente por uma rabanada poveira, que nunca tínhamos experimentado e que foi uma bela “première”.

Na terra de Eça de Queiroz, nesta Póvoa de Varzim ensoleirada no Verão e batida pela nortada nos meses de intempérie, continua a valer a pena parar para uma refeição. Este Bodegão da Póvoa – que raio de nome para um grupo de restaurantes!, tradução portuguesa de “bodegón” que seguramente não teve em atenção o significado que o dicionário luso dá à palavra – é um local simpático, descontraído e que não deslustra a cidade. Ah! E com preços muito convidativos.

O Bodegão
Rua Paulo Barreto, 2
Póvoa de Varzim
Tel. 252 624 716
Fecha:
Preço médio: €25
Estacionamento difícil


26.5.17

Solar dos Duques (Lisboa)

A solidez de uma cozinha tradicional

A Lisboa dos bairros já teve melhores dias, mas Campo de Ourique ainda é um bairro “a sério”. A cultura de vizinhança, a pequena loja, a certeza de poder encontrar por ali o essencial para a vida, tudo isso lhe confere uma unidade que outros bairros estão cada vez mais a perder. Na restauração, Campo de Ourique é hoje um marco lisboeta, com uma bela e diversificada oferta - das tascas a restaurantes com maior sofisticação.

O “Solar dos Duques” é por ali, desde há bastante tempo, um valor que tenho sempre por seguro. Passo por lá muito, nunca saí de lá insatisfeito. Cultiva uma cozinha tradicional com toque marcadamente alentejano, com alguma ambição na diversidade, a preços que são razoáveis para a qualidade oferecida. Tem um serviço profissional, num espaço modernizado, agradável. Para muitos, tem ainda uma virtualidade única: pode-se fumar em todo o restaurante, graças a uma ventilação muito eficaz. À hora de almoço, o “Solar”, que tem 50 lugares, está quase sempre cheio, com uma clientela fiel, mas aconselharia uma prévia reserva telefónica, em qualquer circunstância.

Olhando a lista, anotam-se, nas entradas, queijos alentejanos, ovos mexidos com farinheira, cogumelos recheados, empadinhas e chamuças, para além do paínho de porco preto e um presunto ibérico. Optámos, desta vez, pelo bom queijo fresco de Serpa e pelos peixinhos da horta, que sempre agradam por ali. Havia também ameijoas à Bulhão Pato e gambas “al ajillo” (quando aprenderão os nossos restaurantes, de uma vez por todas, a escrever isto de forma correta?) e uma oferta de marisco.

Nos pratos principais seguimos os “do dia”, e não nos arrependemos. Os pilins com salada russa, o borreguinho no churrasco com batatinha e grelos, as puntilhitas fritas à algavia, os rins de vitela no churrasco com ovos mexidos e os pastéis de massa tenra com arroz malandrinho foram as nossas opções. E, posso assegurar, nenhuma delas deixou “ficar mal” o Solar. Boa qualidade dos produtos, uma adequada confeção, uma apresentação sóbria, sem pretensões, tempo de serviço muito razoável, para uma casa muito cheia. Nos peixes, havia por ali robalo, garoupa, pescada, pregado, bife de atum, além de ovas e choquinhos. Nas carnes, para além dos bifes e do pica-pau, cuja carne costuma ser de muito boa qualidade, tinham opções de porco (lombinhos, secretos) e de borrego, bem como a alheira transmontana.

Atento o “peso” da experimentação anterior, nas sobremesas só se provou um “crumble” com gelado. Mas, de prévias visitas, guardo boas recordações do fidalgo, das ameixas de Elvas, com ou sem sericaia, e de um pudim Abade de Priscos que não deslustra o nome. No restante, havia o habitual: leite crème, arroz doce, tarte de amêndoa, etc.

O “Solar dos Duques” tem uma boa carta de vinhos, a preços comuns nos restaurantes de Lisboa. Experimentámos, desta vez, o tinto a jarro da casa, da zona de Portalegre, aceitável para o preço moderado a que é vendido.

O “Solar dos Duques” faz parte dos nossos poisos habituais, em especial ao almoço. Por isso, o leitor que seguir esta nossa recomendação arrisca-se a que nos cruzemos por lá…

Solar dos Duques
Rua Almeida e Sousa, 58 B
Campo de Ourique
Lisboa
Tlf 213 872 674
Fumadores
Encerra: Domingo
Preço médio 25 euros

24.2.17

"Costa do Sol" (Vila Pouca de Aguiar)


Boa surpresa no vale de Aguiar

Durante muitos anos, nunca tive Vila Pouca de Aguiar como um lugar onde me apetecesse parar para uma refeição. Vila Real ou Chaves, de que fica quase equidistante na antiga estrada nacional, ofereciam sempre opções, em matéria de restaurantes, que aquela simpática localidade do Vale de Aguiar nunca conseguia equiparar. Até mesmo um pouco a sul, em Vilarinho da Samardã, ou meia dúzia de quilómetros a norte, nas Pedras Salgadas, a concorrência chegou a ser suficiente para não estimular uma paragem. E no Vidago, claro, a sua grande unidade hoteleira permanecia sempre como uma alternativa “hors concours”.

Vila Pouca – é assim que por ali é conhecida a “capital” do Vale de Aguiar, onde nasce o rio Corgo, que dali desce para o Douro – situa-se hoje numa cómoda confluência de autoestradas – a A24, de Viseu a Espanha, e a A7, que leva a Guimarães e à Póvoa de Varzim – esta última que substitui a velha estrada que, por Ribeira de Pena e pelo Arco do Baúlhe, fazia noutros tempos a deslumbrante transição de paisagens entre Trás-os-Montes e as terras de Basto e do Minho.

Um dia, já há alguns anos, olhei por acaso um hotel com ar recente, o “Aguiar da Pena”, à chegada a Vila Pouca, no acesso da autoestrada. De fora, por vidraças amplas, vislumbrei uma sala de jantar com um ar moderno. Dentro de mim subsiste, reconheço que cada vez com menos razão, um “parti-pris” enquistado contra os restaurantes de hotel. Mas, por qualquer motivo, dessa vez decidi arriscar. E, confesso, desde esse dia, fiquei cliente do “Costa do Sol” – nome que o restaurante adotou e que, no exterior, figura hoje bem assinalado.

A sala é generosa, com uma decoração arejada e muito funcional. Alerto para o facto de que o ambiente, em fins-de-semana de Verão ou outras férias, se poder tornar um pouco barulhento, como ocorre frequentemente em terras de emigração, dadas a jantaradas de grupo. A qualidade daquilo que nos é servido bem como a simpatia e amabilidade do serviço compensam, contudo, essas conjunturais circunstâncias. A família Machado, proprietária do hotel, a começar pelo dono, António Machado, e a acabar no seu filho Pedro, que gere a sala com grande eficiência e conhecimento, garantem um acolhimento cunhado pela tradicional hospitalidade transmontana. Um conselho: sigam-se as suas sugestões! Eu assim faço. 

As entradas propostas são interessantes, com alheira, moura e linguiça como valores seguros. Nos pratos, o produto mais afirmado da casa é a vitela maronesa, grelhada, ou na forma do seu magnífico lombelo. Várias sugestões de carne de porco são-nos também sugeridas, com os lagartos ou os secretos do dito com óbvio destaque. Há ainda vários bacalhaus (nas vezes que os pedi, nunca tive uma má experiência e considero-me bem exigente neste domínio), pescada ou linguado, bem como alguns pratos simples de marisco. Por encomenda – mas já por lá o provei em dias comuns – há um magnífico cabrito assado no forno, um cozido à portuguesa, uma feijoada à transmontana e javali. As sobremesas não oferecem grandes novidades, mas a tarte ou o folhado de maçã mostram-se de muito boa qualidade.

Nota final para uma carta de vinhos interessante, nada especulativa, com vários verdes (ou não estivéssemos por ali próximos da zona de transição), com óbvio destaque para os seus brancos. Nos maduros, quer brancos quer tintos, há uma natural atenção à região (experimente o Arcossó) e aos vinhos do Douro. Mas o Alentejo, Setúbal e o Dão também ali estão representados.

Gente muito simpática e atenta, excelente comida, preço muito razoável, num espaço arejado e confortável, com estacionamento garantido no exterior – o “Costa do Sol” é um motivo sólido para uma paragem em Vila Pouca de Aguiar. 

Restaurante “Costa do Sol”
Hotel “Aguiar da Pena”
Rua Imperador Teodósio, 18/20
Vila Pouca de Aguiar
Tel 259 417398
Fecha domingo ao jantar (exceto Verão)
Não fumadores

Preço médio 18 euros 

(Crónica publicada na "Evasões", 24.2.17)

13.2.17

O que nunca pedir num restaurante


(EL CONFIDENCIAL, 13.01.17)
El prestigioso chef Bourdain advierte de lo que nunca debes pedir en un restaurante
Las especialidades son cosa de cada local. Con todo, se puede predecir a veces qué platos no van a estar en buenas condiciones. Es lo que piensa el chef Anthony Bourdain
Enfrentarse a la carta: tarea nada fácil. Las causas para ir a un local u otro no están a veces muy definidas: el consejo de un amigo; la crítica que leímos hace tiempo en un determinado medio; el deseo de probar algo nuevo, pero indefinido; o, simplemente, que un día hemos pasamos por delante y el sitio nos ha resultado particularmente atractivo. Acudimos a los restaurantes por pareceres bastante irracionales y cuando llega el momento de seleccionar un plato nos podemos sentir bastante perdidos si antes no nos hemos informado sobre los puntos fuertes del lugar.
¿Te gusta la carne muy hecha? Los peores cortes pueden ser aprovechados por el personal, carbonizando la carne y escondiendo su sabor.~

Si no disponemos de datos previos, un buen criterio para poder elegir es saber, precisamente, lo que nunca debes elegir, o sea, pensar a la inversa. No podemos ofrecer claves sobre lo que no va a fallar nunca en la mesa, ya que ello depende de las especialidades, de los productos, de los conocimientos de los cocineros... Sí se pueden establecer, sin embargo, pautas sobre lo que es probable que no vaya a funcionar. Por lo menos eso asevera el veterano chef Anthony Bourdain, antiguo jefe de cocina de la Brasserie Les Halles de Manhattan. La estrella mediática habla sobre algunos de los platos y de las prácticas que deberías evitar a toda costa en varios de sus libros. Veamos detenidamente el sugerente elenco de consejos.

Carnes, pescados y mariscos
¿Te gustan los filetes muy hechos? Pedir la carne cocinada de este modo suele ser la preferencia de aquellos a los que en realidad no les entusiasma este alimento. Preparar la carne demasiado hecha es una práctica que arrastramos desde el siglo XIX, cuando era más difícil conservarla en buenas condiciones. Si te gusta de este modo, que sepas que el restaurante te la puede jugar. Los peores cortes, es decir, aquellos que están más rancios o que carecen de sabor, pueden ser aprovechados por el personal, carbonizando los filetes y sirviéndolos con un gusto un poco a quemado. Es también fundamental escapar de la moda de la carne de vaca japonesa llamada wagyu. Cuando el precio que aparece en la carta es demasiado bajo. Se trata de un auténtico manjar que no puede estar presente en la carta de cualquier restaurante.

No comas en un local que tenga los baños sucios. Si el retrete no está en unas mínimas condiciones sanitarias imagina lo que pasa en la cocina.

Respecto al pescado, ya se sabe. Nos podía gustar más o menos cuando éramos pequeños, pero lo cierto es que nuestras madres no nos lo preparaban jamás los lunes, ¿por qué, entonces, deberíamos encargarlo dicho día cuando salimos a comer fuera? Bourdain ha sido siempre el gran defensor de que el día perfecto para el pescado era el jueves, momento en el que los cocineros encargan su compra en el mercado. A pesar de defender con ahínco en su libro 'Kitchen Confidential' que no se comiera jamás pescado los lunes, Bourdain se ha retractado recientemente y con, excepción de aquellos locales particularmente económicos, asegura que ahora el pescado se puede pedir cualquier día de la semana. Podemos ser un poco más confiados también por lo que se refiere al sushi, si bien Bourdain ha recomendado en declaraciones pretéritas ser especialmente precavidos por lo que se refiere a los híbridos entre comida china y japonesa que ofrecen sushi barato.

Atentos a las ostras y a los mejillones.
Importante tomarnos en serio el tema de las ostras pues que no estén en buenas condiciones entraña serios peligros para la salud. Lo mismo ocurre con el marisco. Si es fresco, y no está congelado, debería limitarse única y exclusivamente a los locales situados cerca de la costa. Respecto a los mejillones, Bourdain reconoce que no los come jamás a no ser que conozca al chef o haya podido ver el producto con sus propios ojos, ya que advierte que el personal no es muy escrupuloso con su manejo. Un solo mejillón en malas condiciones puede arruinar al resto del producto sano.
Errores mayúsculos
El brunch es una práctica que está sobrepasando las fronteras del mundo anglosajón. La costumbre de juntar el desayuno y la comida se está instaurando en países donde no era tradicional, ya que permite aprovechar mejor las horas libres del domingo. Cocinarlo en casa puede ser una opción polémica, pero viable; tomarlo en un restaurante resulta, por el contrario, un craso error. La razón es que esta comida para vagos se suele elaborar con los restos del viernes y del sábado. El brunch suele estar preparado además por el equipo B del restaurante y es donde muchos aprendices experimentan para poder adquirir el oficio. Si esto ocurre en países donde el brunch es tradición, como en el Reino Unido o en Irlanda, nos podemos imaginar lo que sucede tras los fogones de los restaurantes del resto del planeta. Uno de los platos típicos de este desayuno-almuerzo son los huevos con salsa holandesa, un condimento que, literalmente, apasiona a las bacterias que la colonizan de manera masiva. Advierte Bourdain que jamás ha visto preparar esta salsa en el mismo día en que se sirve. ¿Unirte a la moda del brunch? ¿Estás seguro?

Regla de oro para Bourdain: no comas jamás en un restaurante que descuide los baños. Si el local no es ni siquiera capaz de tener el retrete en unas mínimas condiciones sanitarias o el suelo de los lavabos está particularmente sucio, imagina lo que puede estar sucediendo en la cocina.
Pero la mayor equivocación, el error más grave que puedes cometer, es, para Bourdain, el de solicitar un plato que no se encuentra en el menú. Si por motivos de dieta te encuentras limitado en los alimentos o si no te gusta lo que ves escrito en la carta, piénsatelo dos veces antes de hacer el papel de comensal 'outsider'. Los camareros se enojarán al tener que explicar en la cocina tu extraña petición, los cocineros tendrán demasiadas tareas como para centrarse en los detalles de tu plato. La comida saldrá a la mesa con retraso y seguramente no estará bien cocinada. En definitiva, te juegas que todo el mundo acabe descontento (empezando por ti mismo). En resumen, una alternativa menos inteligente que discutir incluso con el propio personal.

27.12.16

A aletria da consoada

O menu da consoada  deste Natal não foi muito diferente do que costuma ser. O bacalhau, talvez por virtude de um truque aprendido quase no próprio dia, estava excelente, lascoso e não afarinhado, como às vezes sucede. Como é de regra, o polvo estava melhor no dia seguinte, na "roupa velha". Era tenro e deu origem às graças de que "o polvo é quem mais ordena" ou, a recordar Pinheiro de Azevedo, de que "o polvo é sereno". A reserva da Quinta do Castro estava no ponto, embora o ano nem sequer fosse o ideal. Ah! E o perú do dia de Natal estava saboroso, com pele crestada, se bem que, para o ano, e para o meu gosto, umas batatas alouradas devam fazer parte do acompanhamento, como mandam as NEP.

Mas isto foi um mero intróito para poder falar dos doces. (Uma nota, em parêntesis, para o bolo-rei da Gomes, plenamente à altura da sua história). Os sonhos marcharam sem grande entusiasmo, porque, de há muito, são os mal-amados da casa e só se apresentam por rotina. Já as rabanadas, o "pain perdu" lusitano, tiveram larga procura, com um molho a preceito. Não me refiz ainda da falta da sopa dourada, que a minha mãe fazia como ninguém. E como, desde há uns anos, deixou de estar na mesa, por razões que não são para aqui chamadas, um doce de chila com ovos que me alimentou a glicose sazonal por décadas, fiz questão de não levar a sério um substituto de chocolate que por lá se apresentou. Para compensar, uma mousse de chocolate sem ovos foi uma excelente surpresa, no dia de Natal.

Mas do que eu quero verdadeiramente falar-lhes é da aletria. Sou um fã dessa delícia amarela, quadriculada a canela, mas as minhas desilusões nessa matéria excedem, em muito, os grandes momentos. Houve um ano em que desconfiei mesmo que a travessa de aletria era patrocinada pela Cimpor, tal a textura que o suposto doce apresentava. Outros houve em que a massa estava deslavada, permeada de um líquido que lhe dava uma consistência esquisita, menos agradável. Até este ano! O ano da aletria 20 valores! A tecitura era a ideal, o açúcar estava na medida certa, o sabor era "aquele" que devia ser. Nada a mais, nada a menos. A aletria 2016 foi um "vintage", uma colheita ímpar. Só por aquela (digo "aquela" porque, infelizmente, já lá vai) aletria valeu a pena este Natal. Mas já vou passar um ano angustiado: como será a aletria de 2017, com o "benchmark" de 2016 tão elevado?

23.12.16

Café de S. Bento (Lisboa)


O pecado da carne

Um alerta à “classe operária”: vou falar de um ambiente burguês! Pode haver, em Lisboa, locais tão burgueses como o Café de São Bento (e lembro-me de alguns), mas nenhum o é mais. O restaurante de que hoje vos falo é a encarnação daquilo que de mais saudavelmente burguês pode existir. Da decoração “chic sóbria” ao serviço delicado e profissional, da qualidade do que nos é proposto à fatura final, estamos ali no espaço de uma Lisboa que se trata bem, que assume algum epicurismo, que não regateia o requinte, que está disposta a pagar o conforto de uma refeição que a satisfaça em pleno. O Café de São Bento é um restaurante caro? Não é. Porém, como tudo aquilo que se mede à luz da bitola burguesa, também não é um restaurante barato. O que de mais elogioso posso dizer sobre este local é que o preço que ali nos cobram está em perfeita sintonia com a qualidade daquilo que nos é oferecido.

Alguns dirão: mas o Café de S. Bento são só bifes! Esta é apenas uma “pós-verdade”. Os bifes são, por ali, a alma gastronómica da casa. (Já lá iremos). Mas o leitor pode iniciar a refeição com uns Camarões “al ajillo”. Ou um (sempre excecional) queijo da Serra da Estrela certificado, acompanhado de uma geleia de Pimento de Espelette. Ou optar por um Carpaccio de Salmão fumado, com vinagreta de mel e lima, rúcula e tapenade de azeitona verde. Ou ainda um Carpaccio de Novilho, sobre o qual encontrará, naturalmente, um pouco de parmesão e pimenta rosa. Ou, ainda, pode deliciar-se com um Pata Negra (há mesmo uma “trilogia”) de grande nível.

Em coisas mais leves, com reflexo favorável no preço, tem uma oferta de Salmão fumado com salada, sobre tosta de pão alentejano e queijo creme com ervas final. Ainda mais “em conta”, um excelente Prego do Lombo, servido em pão alentejano com batatas fritas à rodela e salada tem-me “sabido pela vida” com frequência. E há Tostas, com manteiga “a dourar”.

Mas o leitor quer que lhe fale dos bifes, não é? Vamos a isso.

O “rollsbeef” da casa é o Bife à Café de S. Bento, versão magnífica do clássico da culinária lisboeta “bife à Marrare”, imerso num molho suculento. A qualidade da carne é sempre (repito, sempre) soberba. Vem com batatas aos palitos. Pode pedir para colocar um ovo estrelado por cima e uma dose de esparregado de espinafres ou uma salada verde, que vai sempre bem de acompanhamento e absolve vegetarianamente o “pecado”.

Mas o Bife à Portuguesa que o Café de São Bento também nos propõe, frito em azeite, com alho e louro, com batatas fritas (desta vez) às rodelas é também “um espetáculo”, como alguns dizem. E, finalmente, há ainda o Bife grelhado tradicional, com o tipo de batata que lhe aprouver. Em todos os casos, um conselho: se puder, opte pela carne mal passada (ou “medium-rare”, no máximo). Ela merece…

Esqueci-me de falar do pão de mistura de centeio e trigo, alentejano, com manteiga fresca, que lhe vão propor, a abrir. Cuidado com ele! É um perigo, porque é delicioso.

As sobremesas? Só duas notas, dentre as várias propostas: o “crème brulée” e o Carré 2 Chocolates (leite e negro, com 70% de cacau) sobre biscoito de amêndoa e crocante de avelã. Para acompanhar, há um Porto, um “late harvest” ou um moscatel.

Uma nota sobre os restantes vinhos. Douros e Alentejo em evidência (algumas meias garrafas e a copo), com Dão, Lisboa e Sado representados.


Na vida, às vezes, constatamos que “a carne é fraca”. Não é o caso do sempre magnífico Café de São Bento… 

1.12.16

Bairro do Avillez


O espaço é novo e muito curioso, logo abaixo da Cervejaria Trindade (já agora: está uma sombra do que era), em Lisboa. Duas salas com serviço diferenciado: à entrada, sem marcações, uma coisas mais leves e mais em conta, lado a lado com a venda de alguns produtos selecionados. Lá dentro, um restaurante com ofertas de nível mais elevado, mas, nem por isso, a preços exagerados. Uma constatação se impõe, por mera justiça: excelente cozinha, serviço muito agradável e profissional, tudo numa relação qualidade/preço à altura daquilo a que José Avillez nos habituou. Uma das boas coisas surgidas na restauração lisboeta em 2016. Só posso desejar sorte a mais esta aventura do chefe "duas estrelas" que muito tem prestigiado a gastronomia portuguesa e que, não por acaso, recebeu no passado dia 24 a raríssima Medalha de Ouro da Academia Portuguesa de Gastronomia.

30.11.16

Dona Lurdes


Há dias felizes assim, como hoje. Batemos com o nariz na porta de um restaurante em Pedras Rubras, que imprudentemente não havíamos cuidado em verificar se estava aberto, e decidimo-nos por um outro, na Maia, de que nos falavam bem. E era verdade. Numa avenida larga da bem urbanizada cidade periférica do Porto, o Dona Lurdes é um belo espaço de restauração - moderno, arejado, com bom gosto e um serviço atento, conhecedor e educado, executado pelo próprio dono. Na impecável cozinha à vista plena da sala, a sua mulher, uma transmontana de Sabrosa, orienta uma equipa fardada a rigor, um rigor que se notou também no cuidado culinário posto em tudo aquilo que nos foi servido, em doses generosas e de muito boa qualidade. Um vinho da casa muito simpático e sobremesas de se comer e chorar por mais completaram uma excelente refeição, numa boa relação qualidade/preço, que nos saciou o apetite mas no-lo abriu para uma muito próxima nova visita.

28.11.16

Vila Real


O meu amigo Sérgio Rebelo, que oficia economia lá por Chicago, tem um magnífico blogue sobre a "terrinha" onde acaba de colocar, em inglês, uma referência ao Restaurante Lameirão, em Vila Real, uma das oito maravilhas do mundo (já havia sete...). Não fui eu quem lhe indicou o poiso gastronómico, foi ele quem o descobriu.

Aqui fica o link.

21.11.16

Recado às escolas de hotelaria


Não será possível ensinar ao pessoal que sai das escolas hoteleiras portuguesas, para benefício dos profissionais que delas saem para hotéis e restaurantes, três coisas muito simples, mas essenciais para a prestação de um serviço de restauração educado, amável e respeitador?

A primeira é que nunca, mas NUNCA, se trata o cliente por "você". É uma indelicadeza, uma falta de consideração e, no meu caso, representa um ponto muito negativo na decisão futura de regressar a uma restaurante.

A segunda, que também muito se vê por aí, é o gesto de passar as coisas à frente dos clientes, sejam os pratos, seja a colocação de talheres. Salvo se tal for de todo impossível, por dificuldades absolutas de espaço - situação em que o empregado deve pedir licença para esse gesto excecional - não é admissível que o braço do empregado se atravesse à frente do cliente. Neste caso, raramente me coíbo de fazer uma observação, o que, por vezes, acaba por ter um efeito negativo no fluir normal do resto do serviço.

Finalmente, a terceira observação tem a ver com o serviço do vinho. Desespera-me o afã com que os empregados despejam, com uma irritante regularidade, o vinho nos copos, procurando esgotar tão cedo quanto possível as garrafas. Tenho assistido a cenas em que, servida uma primeira vez uma mesa com meia dúzia de pessoas, a garrafa chega logo ao fim e o empregado se apresenta, com falsa inocência, a perguntar se queremos que se abra logo outra. É uma "chico-espertice" que, no meu caso, leva a que, no final, eu o brinde o empregado com "zero" euros de gorjeta. Quando a refeição se passa entre gente sem cerimónia entre si, é possível pôr cobro fácil ao abuso, com um alerta imediato ou um "deixe ficar a garrafa, nós servimo-nos". Porém, tratando-se de pessoas com as quais há menos confiança, um gesto desses é mais difícil de ser executado, o que faz com que, não raramente, quase o volume de uma garrafa de vinho fique, no final da refeição, nos copos (em especial de quem bebe menos).

Repito: não seria possível as escolas de hotelaria ensinarem a não proceder desta forma?

20.11.16

Mário Luso


Já há uns anos que não parava no Mário Luso, um clássico nos Carvalhos, na saída sul do Porto. Criado em 1942, foi, durante décadas, um apoio seguro na estrada nacional nº 1, entre o Porto e Lisboa, que ali passava à porta. O restaurante fez entretanto evoluir o seu espaço, desde há alguns anos, "confortabilizando-o" bastante, mas sem lhe retirar o cunho rústico muito próprio. O pessoal de apoio às mesas é de uma extrema simpatia e a qualidade do seu serviço é muito boa. Desta visita, ao lado de várias notas positivas que alicerçam a vontade de voltar, ficaram-nos alguns "mixed feelings" sobre aquilo que nos foi servido. Pela sua história, pelo esforço que há muito o Mário Luso desenvolve, com grande empenhamento, prometi-me regressar daqui a uns tempos, para um tira-teimas comigo mesmo.  

19.11.16

Paparico


É uma oferta gastronómica radicalmente diferente aquela que o Paparico, na Rua Costa Cabral, no Porto, nos oferece nos dias que correm. Sou do tempo, a partir do final dos anos 80, onde por ali preponderava o meu amigo Cardoso, um homem de Resende, de onde trazia algumas vitualhas e líquidos do Douro, na base dos quais assentava uma cozinha tradicional portuguesa de grande solidez. Assisti depois ao alargar do espaço, das quatro mesas originais para a criação da ampla sala adjacente, com a pedra das paredes a projetar conforto. Comi por lá muitas vezes, sempre muito bem. Voltei agora. O "conceito" é outro, radicalmente diferente. Apenas menus de degustação, de preço elevado, tornando-se muito elevado (para os padrões portugueses) se aceitarmos a harmonização de vinhos proposta. Não fomos por essa opção, escolhendo um acompanhamento da excelente lista de vinhos que o restaurante apresenta, com preços também eles um tanto inflacionados, o que talvez explique que a nossa mesa fosse a única com portugueses. O jantar foi de muito boa qualidade, sem ser deslumbrante, com um serviço extremamente profissional e sabedor. Fiquei com a sensação de que o "novo" Paparico é uma espécie de "ilha" turística para bolsas abonadas. Só lhe posso desejar boa sorte!  

Parlamento


Come-se muito bem no Parlamento. E não me refiro ao restaurante da Assembleia da República. O Parlamento de que lhes falo é o mais clássico restaurante de Arouca. Há anos que ouvia falar dessa catedral da restauração, mas só agora tive o ensejo de passar por lá, para um almoço com amigos. Foi uma experiência excelente, que tenciono repetir logo que possível. O espaço não tem nada de extraordinário, o serviço tinha aquela simpatia expectável da província, mas a comida era de "chorar por mais". As opções da lista foram clássicas, das carnes à doçaria, que, como é sabido, é uma das "perdições" da terra. Com "parlamentos" destes o povo "governa-se" sempre bem.

18.11.16

Versailles


Só não sou um "habitué" da Versailles porque esta pastelaria e restaurante me não fica "à mão". É sempre um lugar agradável para um chá, com um serviço profissional e atento. Nos dias que correm, as obras na Avenida da República tornam uma ida à Versailles numa espécie de caminho entre trincheiras mas, pronto!, passei por lá para almoçar. Reservei uma mesa "em cima", porque desagradam-me as do piso térreo, onde se não consegue ter uma conversa discreta. A refeição não ficou nos anais, mas a Versailles é um espaço tão simpático que (quase) esqueci que apenas comi "assim-assim". 

16.11.16

Café de S. Bento


Há poucos lugares onde não se corre o risco de comer mal. O Café de S. Bento, junto à Assembleia da República, em Lisboa, é um deles. Nunca de lá saí desiludido e sou um cliente com décadas de visitas. O preço não é barato, mas a qualidade é soberba, em especial a carne dos famosos bifes da casa, o "rollsbife" de Lisboa. O pessoal é impecável no seu profissionalismo e simpatia. O espaço, em especial depois da remodelação há uns anos, está excelente. É um imenso gosto jantar por ali (embora agora abra ao almoço). Eu, que não gosto de jantar sozinho, quando eventualmente isso acontece faço-o, com grande agrado, no Café de S. Bento. 20 valores! 

4.10.16

O "espetáculo"

Como sempre, perguntei ao João, dono da Imperial de Campo de Ourique (Rua Correia Teles, 67/69), o que nos recomendava para o almoço, no sábado passado. Notei-lhe a tradicional hesitação: estava tudo "um espetáculo!". Vou desistir: nunca consegui arrancar dele um destaque de um menu de que se orgulha como um todo. E, pronto!, depois do belo presunto de entrada (teve de vir reforço!) lá optei por um Bacalhau à Minhota que, de facto, estava muito bom. Desta vez, o vinho da casa, bem gabado pelo João, era da zona de Arruda, e também era excelente. Um belo almoço! E barato.

A Imperial é uma casa simples que tem ar de ter sido uma antiga garagem. É um lugar onde me sinto bem, uma casa amiga, a que regresso sempre com gosto e sou recebido com uma inexcedível simpatia pelo João - um minhoto de Ponte da Barca com quem falo das suas raízes comuns com o meu bisavô.

Aqui fica a fotografia da "troika" familiar que torna a Imperial num "espetáculo!".

3.10.16

Adeus, Ancoradouro!


Era uma casa muito simpática no Moledo, propriedade de pessoas com quem, com os anos, vim a estabelecer uma magnífica relação de amizade. Os seus grelhados e o peixe fresco foram lendários, como o era a simpatia dos proprietários, a começar na Dona Fátima, passando pelo falecido Manuel Galvão e a acabar no filho Alfredo.

Dizem-me agora que o Ancoradouro fechou. Tenho imensa pena.

Regresso ao trabalho


Os amigos que fazem o favor de me seguir queixam-se recorrentemente de que este blogue tem estado "inerte". Têm razão. Falta de tempo e a necessidade de ter algum cuidado quando se aborda um tema que mexe com a vida e o trabalho de outros tem-me levado a uma forte parcimónia na elaboração de textos.

Vou assim tentar um novo modelo, por assim dizer. Para além da transcrição aqui das croniquetas restaurativas que escrevo noutros locais, vou adotar um género diferente, isto é, pequenas e mais frequentes nótulas sobre experiências tidas em visitas a certos restaurantes. Veremos se resulta.

29.7.16

Casa Aleixo (Porto)



O polvo é quem mais ordena

No Porto há vários restaurantes clássicos, mas eu arriscaria dizer que, nos dias de hoje, nenhum tem os pergaminhos históricos do Aleixo.
O Aleixo fica em Campanhã, a dezenas de metros da mais movimentada estação ferroviária da cidade. Contudo, nem por isso sofre da banalização que, muitas vezes, afeta os lugares de restauração próximos dos centros de transportes coletivos. Ao longo de toda a sua existência, com altos e baixos, somados a crises e dissídios, a casa tem conseguido sustentar uma qualidade muito apreciável, sendo procurado por uma clientela fiel local e, em especial nos últimos anos, também pelos turistas que enxameiam o Porto. E, claro, por forasteiros como eu, que mapeiam o país das boas vitualhas.
O espaço do Aleixo é típico de um restaurante sem grandes sofisticações, mas com um ambiente acolhedor, quase caseiro. Não fora a pressão de clientes em dias de maior procura e seria tentado a dizer que recorda as saudosas pensões de província, nos tempos imemoriais do “bom e barato”. Estamos um pouco longe disso, isto é, continua bom mas, como não podia deixar de ser, porque a qualidade dos produtos tem de ser paga, já não é um restaurante qualificável como barato – muito embora, a meu ver, tenha uma relação qualidade/preço muito boa.
Sou cliente antigo do Aleixo. Nem me recordo de quando por lá parei pela primeira vez, seguramente saído de um comboio ou a fazer horas para ele. Creio que sou ainda do tempo em que nem café era por ali servido, como também lembro o período, menos agradável, em que, para o tomar (mas de saco), éramos obrigar a deslocar-nos para uma sala feita bar, em bancos incómodos, onde se acertavam as contas finais. Hoje, esse espaço passou a ter mesas e foi aí que, há dias, almocei.
O que se comeu? Abriu-se com bolinhos de bacalhau, feitos na hora, com a consistência certa, acompanhados de feijão frade. Deixámos para memória futura os rissóis de pescada e os croquetes de alheira, e as tradicionais tripas, entre as várias entradas sugeridas – mas não impostas, como deve ser.
Por mim, raramente consigo ir ao Aleixo sem comer os seus filetes de polvo, “com arroz do mesmo”, que encantavam o Jaime Ramos, o polícia da ficção do Francisco José Viegas. Devo dizer, sem a menor sombra de dúvida, que são os melhores filetes de Portugal, embora não arrisque dizer “do mundo”, como ousa Miguel Esteves Cardoso. São muito bem cozinhados, “al dente”, para pedir de empréstimo um termo das massas. O arroz estava simplesmente de comer e chorar por mais.
Mas, em matéria de filetes – porque nem só de polvo por ali se vive – provaram-se uns de robalo do mar, com ameijoas à Bolhão Pato, que, estando bons, não fizeram esquecer os tradicionais de pescada, que continuam nos lugares cimeiros do património culinário da casa.
O Aleixo tem também um bacalhau frito de cebolada que recordo excelente. E carnes, claro, onde se destaca uma posta de vitela maronesa que um dia experimentei com gosto. Aos jantares de sexta-feira e ao sábado, há por ali cabrito assado no fogão a lenha. A costela mendinha assada é servida às quartas-feiras.
Não falei das sobremesas. As famosas rabanadas da casa e o pudim Abade de Priscos confirmaram a expetativa.
A carta de vinhos não é muito extensa, mas tem o essencial. Fomos por um verde branco “Avesso”, simpático e boa companhia para uma refeição da qual que saímos muito agradados. Como sempre, aliás.



Casa Aleixo

Rua da Estação, 216

Campanhã

Porto

Telf: 225 370 462

Reserva aconselhada

Estacionamento próprio

Não fumadores

Encerrado ao domingo

Preço médio: 25 euros