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29.7.16

Casa Aleixo (Porto)



O polvo é quem mais ordena

No Porto há vários restaurantes clássicos, mas eu arriscaria dizer que, nos dias de hoje, nenhum tem os pergaminhos históricos do Aleixo.
O Aleixo fica em Campanhã, a dezenas de metros da mais movimentada estação ferroviária da cidade. Contudo, nem por isso sofre da banalização que, muitas vezes, afeta os lugares de restauração próximos dos centros de transportes coletivos. Ao longo de toda a sua existência, com altos e baixos, somados a crises e dissídios, a casa tem conseguido sustentar uma qualidade muito apreciável, sendo procurado por uma clientela fiel local e, em especial nos últimos anos, também pelos turistas que enxameiam o Porto. E, claro, por forasteiros como eu, que mapeiam o país das boas vitualhas.
O espaço do Aleixo é típico de um restaurante sem grandes sofisticações, mas com um ambiente acolhedor, quase caseiro. Não fora a pressão de clientes em dias de maior procura e seria tentado a dizer que recorda as saudosas pensões de província, nos tempos imemoriais do “bom e barato”. Estamos um pouco longe disso, isto é, continua bom mas, como não podia deixar de ser, porque a qualidade dos produtos tem de ser paga, já não é um restaurante qualificável como barato – muito embora, a meu ver, tenha uma relação qualidade/preço muito boa.
Sou cliente antigo do Aleixo. Nem me recordo de quando por lá parei pela primeira vez, seguramente saído de um comboio ou a fazer horas para ele. Creio que sou ainda do tempo em que nem café era por ali servido, como também lembro o período, menos agradável, em que, para o tomar (mas de saco), éramos obrigar a deslocar-nos para uma sala feita bar, em bancos incómodos, onde se acertavam as contas finais. Hoje, esse espaço passou a ter mesas e foi aí que, há dias, almocei.
O que se comeu? Abriu-se com bolinhos de bacalhau, feitos na hora, com a consistência certa, acompanhados de feijão frade. Deixámos para memória futura os rissóis de pescada e os croquetes de alheira, e as tradicionais tripas, entre as várias entradas sugeridas – mas não impostas, como deve ser.
Por mim, raramente consigo ir ao Aleixo sem comer os seus filetes de polvo, “com arroz do mesmo”, que encantavam o Jaime Ramos, o polícia da ficção do Francisco José Viegas. Devo dizer, sem a menor sombra de dúvida, que são os melhores filetes de Portugal, embora não arrisque dizer “do mundo”, como ousa Miguel Esteves Cardoso. São muito bem cozinhados, “al dente”, para pedir de empréstimo um termo das massas. O arroz estava simplesmente de comer e chorar por mais.
Mas, em matéria de filetes – porque nem só de polvo por ali se vive – provaram-se uns de robalo do mar, com ameijoas à Bolhão Pato, que, estando bons, não fizeram esquecer os tradicionais de pescada, que continuam nos lugares cimeiros do património culinário da casa.
O Aleixo tem também um bacalhau frito de cebolada que recordo excelente. E carnes, claro, onde se destaca uma posta de vitela maronesa que um dia experimentei com gosto. Aos jantares de sexta-feira e ao sábado, há por ali cabrito assado no fogão a lenha. A costela mendinha assada é servida às quartas-feiras.
Não falei das sobremesas. As famosas rabanadas da casa e o pudim Abade de Priscos confirmaram a expetativa.
A carta de vinhos não é muito extensa, mas tem o essencial. Fomos por um verde branco “Avesso”, simpático e boa companhia para uma refeição da qual que saímos muito agradados. Como sempre, aliás.



Casa Aleixo

Rua da Estação, 216

Campanhã

Porto

Telf: 225 370 462

Reserva aconselhada

Estacionamento próprio

Não fumadores

Encerrado ao domingo

Preço médio: 25 euros

2 comentários:

  1. O Aleixo. Já lá vão mais de quarenta anos quando comecei a frequentá-lo, levado por amigos do jornal onde então trabalhava Durante um ano inteiro fui lá almoçar quase diariamente. O velho Aleixo estava sempre ali, Trabalhava que nem um cavalo e, por isso, chamavam-lhe o Cavalo. Não se ia ao Aleixo, ia-se ao Cavalo. Se bem me lembro, havia apenas uma sala em cima e outra em baixo à qual se chegava por umas escadas que um sobrinho (seria?) do Aleixo descia em grande velocidade com um prato em cada mão. A comida era magnífica, com particular relevo para os filetes, de pescada e de polvo, como agora. Só que quem os fazia era a própria mulher do Aleixo, na cozinha à vista de todos e encimada por um letreiro que dizia: laboratório. Voltei lá, pela última vez, há uns dez anos. Os filetes eram bons - e pelos vistos continuam a ser - mas havia uma espécie de bar sem qualquer graça. Creio que era o filho do Aleixo que por ali estava e com ele recordei esses anos passados. Tenho que lá voltar.

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  2. So fui uma vez ao Aleixo, que conhecia de nome, ha uns anos atras. Os amigos que me tinham convidado recomendaram os filetes de polvo com arroz do mesmo e apesar de me lembrarem o colastrol e outros perigos, insiti no Abade de Priscos. Afirmo convicta e confiante que nunca comi filetes de polvo tao bons. Abade de Priscos daquele nivel so talvez em Vila Verde (Braga) ha umas decadas, mas nao tenho a certeza.

    Mais tarde lendo um policial Jaime Ramos trouxe-me a memoria os ditos filetes de polvo. Continuei a ler e, umas paginas adiante, dei comigo a pensar: Claro, eram aqueles...

    Saudades

    F. Crabtree

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